quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Seca que é cerca

Sertão, meu sertão,
Ouço tuas histórias e tuas lendas,
E é só ouvir e sonhar
Que fulora o ainda novo mandacaru em meu peito.

Nunca em teu tão talhado chão pisei,
E nunca de teu calor desumano provei.
Mas sei que, neto de Raimundo,
Corre em minhas veias um tanto de você.

O tanto melhor que tenho de ti agora:
Teu cordel, teu lobisomem,
Pavão misterioso e São João.

Roupa de couro e galope mato adentro.
Toca o boi, magro mesmo, para dentro do curral,
Gado gordo por aqui é luxo.

E se o sertanejo é hômi brabo, cabra macho sim-sinhô.
Por que se deixa enganar?
Coroné diz que o problema é a seca.

Ora, hômi, deixe de abestagem,
O problema de teu vasto Estado do Sertão não é seca,
É a cerca!

Gosto tanto de ti quanto teus Hermetinos, Elomares e Gonzagas
E é por isso que incito:
Cadê teu Virgulino? Cadê teu Corisco?
Teu Conselheiro, cadê?

Não deixe agora, hômi,
Que o coroné ouça o que aqui lhes digo:
Larga o São Francisco no lugar,
Teu problema se resolve é no fio do facão,
É no brilho deste punhal de prata,
É no risco da pólvora que arde e alforria.