sábado, 23 de novembro de 2013

Sem nome, no. 2 ou sobre a paixão que acaba pra nossa sorte

Avoou janela adentro,
Deu uma pirueta no ar,
Parou em cima da escrivaninha.
Era ele, 
Belo pássaro verde, veio me contar.

Agora eu sei!
Você vai voltar.

Vai abrir o portão com pressa,
Passar correndo pelos bougainvilles, debaixo do caramanchão,
Derrubar um vaso pequeno no corredor,
Subir os degraus de dois em dois,
E dar as três típicas batidas fortes na porta da frente.

Eu vou levantar com calma,
Destrancar e abrir a porta,
O cachorro vai te cheirar
E te lamber quando lembrar quem é.

Você vai me olhar esbaforida e contar sobre um caso doido,
Um negócio de acidente e prisão na esquina,
Tudo pra quebrar o gelo.

Eu vou te convidar pra entrar,
Você vai começar a me pedir mil desculpas com os olhos baixos,
Vai dizer que quer voltar, que sente falta de tudo, dos filhos.

Sem dar muita atenção, vou gritar na direção da cozinha:
"Ô, Joana, traz uma água, a Maria veio visitar, vem ver"

"Olha, Maria, essa é a Joana, lembra dela?
A nossa vizinha do lado"

Você vai me olhar com ar de interrogação e eu vou te falar bem assim:
"Maria, já fazem dois anos que você saiu dizendo que ia se divertir.
Me deixou sentado bem aqui nessa cadeira, 
No inicio foi complicado, foi desconcertante...
Como eu ia contar pros nossos filhos, Maria?!
Mas, olha, agora tudo mudou,
Olha nossos filhos se divertindo no quintal, 
Repara como cresceram!
Até a economia do país tá melhor desde que você foi embora, Maria."

"Mas agora cê vê como são as coisas, Maria,
Joana ficou sabendo de tudo,
Me trouxe uns doces, 
Não é uma graça?!
As crianças gostaram de primeira,
Eu ainda tinha o pé atrás,
Mas era bobagem, olha que coisa linda essa Joana!"

Desacreditada, você vai se levantar,
Com raiva, vai dar tchau.
E sair do mesmo jeito que chegou.

É, Maria, coitada...
Tudo culpa sua,
Também, quem mandou não ter paciência?!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Sem nome, no. 1 ou sobre a paixão minimalista

Se tudo que sempre me cala,
De maneira torta,
Cisma de escorrer pelos dedos,

Tenha um pouco de paciência,
Que em algumas poucas linhas,
Vai saber o quase tudo que tenho pra te dizer.

Se eu calo a boca
Do que o peito está cheio,
(Amor, raiva, desejo)

De palavras tortas em linhas certas,
Vai saber o que guardo pra ti.
(Amor, raiva, desejo)

Mas só se for paciente,
Se gostar de esperar,
De conversar bobagem enquanto esfria o café,

De sentir o vento no rosto,
Mesmo no dia mais quente do ano,

De ver a fumaça branca dançar pra fora do cinzeiro,
Enquanto saem uns iê-iê-iês da caixinha de som.

De buscar motivos pra ter,
De maneira torta,
O que escorrer pelos dedos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Insignificante

São tão insignificantes as coisas que deixou aqui
Que tiro elas do peito e saio, quase nu, vestido de insignificante

Sento no meio-fio
E enquanto observo o movimento frenético dos carros,

Vou contando pra todos,
Transeuntes e amigos,

Que viver, na verdade, é só saber deixar a poeira acumular,
Pra depois ter sempre o que limpar

E mesmo as coisas mais ínfimas,
Elas temos que deixar rasgar, arder, sujar,

Pra depois, com agulha e linha,
Ocupar a cabeça tentando suturar, remediar, limpar.

Um mendigo sujo e barbudo surge então,
Também se senta,

Se junta ao coro e em meio a soluços filosofa:
As esmolas insignificantes, amigos, que seria de mim sem elas?