Deu uma pirueta no ar,
Parou em cima da escrivaninha.
Era ele,
Belo pássaro verde, veio me contar.
Agora eu sei!
Você vai voltar.
Vai abrir o portão com pressa,
Passar correndo pelos bougainvilles, debaixo do caramanchão,
Derrubar um vaso pequeno no corredor,
Subir os degraus de dois em dois,
E dar as três típicas batidas fortes na porta da frente.
Eu vou levantar com calma,
Destrancar e abrir a porta,
O cachorro vai te cheirar
E te lamber quando lembrar quem é.
Você vai me olhar esbaforida e contar sobre um caso doido,
Um negócio de acidente e prisão na esquina,
Tudo pra quebrar o gelo.
Eu vou te convidar pra entrar,
Você vai começar a me pedir mil desculpas com os olhos baixos,
Vai dizer que quer voltar, que sente falta de tudo, dos filhos.
Sem dar muita atenção, vou gritar na direção da cozinha:
"Ô, Joana, traz uma água, a Maria veio visitar, vem ver"
"Olha, Maria, essa é a Joana, lembra dela?
A nossa vizinha do lado"
Você vai me olhar com ar de interrogação e eu vou te falar bem assim:
"Maria, já fazem dois anos que você saiu dizendo que ia se divertir.
Me deixou sentado bem aqui nessa cadeira,
No inicio foi complicado, foi desconcertante...
Como eu ia contar pros nossos filhos, Maria?!
Mas, olha, agora tudo mudou,
Olha nossos filhos se divertindo no quintal,
Repara como cresceram!
Até a economia do país tá melhor desde que você foi embora, Maria."
"Mas agora cê vê como são as coisas, Maria,
Joana ficou sabendo de tudo,
Me trouxe uns doces,
Não é uma graça?!
As crianças gostaram de primeira,
Eu ainda tinha o pé atrás,
Mas era bobagem, olha que coisa linda essa Joana!"
Desacreditada, você vai se levantar,
Com raiva, vai dar tchau.
E sair do mesmo jeito que chegou.
É, Maria, coitada...
Tudo culpa sua,
Também, quem mandou não ter paciência?!