sábado, 22 de dezembro de 2012

Desmascararam-te

Veja que formidável, Tristeza,
Todos nós aqui reunidos em torno de seu leito de morte,
E, que incrível: nem mesmo sabes que morreu,
Tu mesma se vê, e finge não acreditar que afundas lentamente.

No fétido cheiro que sobe de tua cama,
Onde ousei um dia deitar, e onde preserva os mesmos lençóis,
Jaz sem teus tantos véus,
Que cismavam em encobrir a verdade de teu rosto,
Agora pálido e cadavérico.

Teus véus caíram, Tristeza,
Desmascararam-te!
Encontra-se agora nua, com teu magro corpo,
Sem tuas tão rotas roupas tecidas pela fiandeira da mentira.

Tu que enganaste a todos nós aqui reunidos,
Agora se vai aos poucos, sem carinho, sem saudade.
Vá logo, Tristeza, não se demore,
Não se esqueça de que há muito já não é bem vinda,
E lembre-se de que aqui ninguém mais se importa se vai bem ou mal.

É a tua irmã, Tristeza, a Felicidade
Que me faz bem, e a quem tanto desejo.
A você, não sobra mais do que aquela velha história:
Um abraço fingido e até nunca mais.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sinos que dobram

Ouça, sinhá dona
Mas ouça com cuidado.
Veja esse som que vem trazido pelo vento,
E mesmo aqui, no Rancho Fundo,
Conseguimos distinguir com perfeita exatidão.

Sinos! Sim, voltaram a tocar.
Os sinos da velha Igreja
Matriz barroca,
Aleijadinha construção.

E na cidade que cresce ao seu redor,
Janelas e portas se abrem à alegria de um novo dia.
Jovem novo e idoso à caminhar pela praça.
Mãe e avó à costurar novidades.

Na velha quitanda, os papos de sempre,
E a velha cachaça à molhar as palavras.
Já não se importam, todos,
Com a estranha e repentina escuridão de outrora.

É passado o tempo de tristeza, sinhá dona.
E a tempestade que nos assolou por meses,
Sem deixar passar nem o antigo trem,
Já fez seu caminho de saída.

E eu, capiau desajeitado,
À serviço do velho feitor,
Posso voltar, com a fiel enxada,
A plantar as coisas da terra.

Voltar a plantar
Todas as delícias
E todo o amor que deixei de dar
Para minha tão necessitada família.

Diga ao feitor, sinhá dona,
Que seu gado, já tão magro no curral,
Agora há de engordar.
E que os frutos das velhas árvores virão agora em abundância.

É chegado o novo tempo de amor e liberdade.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Maria

Maria, mulher de jeito tão peculiar,
Me jurou amor eterno,
Mas Maria não sabe bem o que quer.

E eu, juvenil Juvenal,
Tolo que só, acreditei.

Maria me fez jurar
De quatro, uivando,
Que só para ela teria olhos.

E eu, juvenil Juvenal,
De todo verdade, jurei.

Mas Maria não sabe bem o que quer
E após algum indeciso tempo,
Qual furacão que passa e arrebenta,
Partiu.
(Maria cigana, Maria maré)

Sem bilhete, sem resposta,
Maria deitou, sabe-se lá em quais camas.
E bebeu, sabe-se lá em quais copos.
E matou a insaciável fome, sabe-se lá em quais corpos.

E não sabendo bem o que quer,
Maria tornou a voltar,
Como uma tempestade, que vem sei lá d'onde.
E novamente jurou e me fez jurar.

E eu, juvenil Juvenal,
Acreditei e jurei.

E após refastelar-se,
De atenção e prazer,
Com tudo o que eu tinha para lhe oferecer,
Maria me engana e finge estar feliz.

E não sabendo bem o que quer,
Qual uma ventania,
Me diz, então, que tem novamente que partir.
(Parte, Maria!)

Se há de ser assim,
Maria, mesmo aflita, me ouça:
Não voltes, Maria,
Nem cigana, nem maré.

E se for o caso de ainda não saber o que quer,
Volte, Maria.
Mas volte
Maria pedra,
Maria chão.