Ouça, sinhá dona
Mas ouça com cuidado.
Veja esse som que vem trazido pelo vento,
E mesmo aqui, no Rancho Fundo,
Conseguimos distinguir com perfeita exatidão.
Sinos! Sim, voltaram a tocar.
Os sinos da velha Igreja
Matriz barroca,
Aleijadinha construção.
E na cidade que cresce ao seu redor,
Janelas e portas se abrem à alegria de um novo dia.
Jovem novo e idoso à caminhar pela praça.
Mãe e avó à costurar novidades.
Na velha quitanda, os papos de sempre,
E a velha cachaça à molhar as palavras.
Já não se importam, todos,
Com a estranha e repentina escuridão de outrora.
É passado o tempo de tristeza, sinhá dona.
E a tempestade que nos assolou por meses,
Sem deixar passar nem o antigo trem,
Já fez seu caminho de saída.
E eu, capiau desajeitado,
À serviço do velho feitor,
Posso voltar, com a fiel enxada,
A plantar as coisas da terra.
Voltar a plantar
Todas as delícias
E todo o amor que deixei de dar
Para minha tão necessitada família.
Diga ao feitor, sinhá dona,
Que seu gado, já tão magro no curral,
Agora há de engordar.
E que os frutos das velhas árvores virão agora em abundância.
É chegado o novo tempo de amor e liberdade.
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