Talvez a vida fosse mais fácil
Se, por exemplo,
Minha ladeira já não fosse comum ladeira,
Se minha ladeira fosse rua de Salvador.
Se os muros fossem rabiscados pelo Carybé,
Ah, que beleza seria viver!
Se cada mulher dessa cidade conhecesse bem meus dotes,
Se nem Iaba pudesse comigo!
E pelo Pelourinho eu perdesse a conta de meus afilhados.
A vida talvez se facilitasse
Se eu também fosse descendente Obiticô.
Se eu também tivesse sangue de nigeriano caçador de leão.
Ora, melhor seria viver só da comida do santo,
Viver vida simples, andar de calça e sem camisa,
E ter dinheiro mesmo só pra branquinha do recôncavo.
Muito melhor seria ritmar no Lê,
E ver Mestre Vadinho fazer o santo baixar com o solo do Rum.
Bom mesmo deve ser ser Ojuobá de Xangô,
Bom mesmo deve ser ser os olhos do rei.
E mesmo sofrendo repressão pelo que sou,
Um mero pardo, macumbeiro, capoeirista,
Bom mesmo deve ser ver Ogum botar delegado Pedrito Gordo pra correr.
Estudar e escrever meus livros.
E me tornar muito mais do que qualquer professor de faculdade assoberbado.
E mesmo levando eternamente um amor que nunca consumei com Rosa de Oxalá,
Por amor e respeito a meu amigo Mestre Lídio,
Nunca largar a pândega.
Tudo pra depois de velho morrer caído no ladeirão...
Ah, que bom seria viver!
Melhor que viver uma espera sem fim.
Melhor que ter que manter o coração pra sempre calado no peito.
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