terça-feira, 31 de julho de 2012
Sabe-se-lá-onde
Certa noite, uma certa moça, interrompeu um beijo e me disse de repente:
- Sabe, adoro a noite, sempre me sinto cheia de vida quando posso beber, dançar e rir e mais tudo isso que fiz hoje... mas, e você, por onde anda seu coração, moço?
Eu hesitei, mas respondi:
- É... Bem aqui no peito, ora!, em tom de piada, tendo certeza de que não era essa a ideia de sua pergunta. Entretanto, havia sido a melhor resposta que encontrei sem levar muito tempo para pensar.
Ela riu-se e fez piada da minha resposta. A moça esperta conseguia entender a razão da minha hesitação em responder-lhe a verdade, adivinhou que eu me encontrava em constante dúvida. E assim, calou-se sem voltar ao tema.
No final da noite, mal sabia ela o mal que me causara. Nos despedimos e seguimos cada um o seu caminho. Maldita moça! Saí desembestado, andando légua tirana à procura de algo ou alguém que pudesse me ajudar. Em busca de um significado pelo qual valesse a pena viver. Caminhando por uma porção de estradas e esquinas, encruzilhadas e ruas sem fim.
E depois de tanto andar e nada encontrar, foi lá na divisa da Fazenda Velha com o Rancho Fundo, no interior de sabe-se-lá-onde, no alto do morro e na beirada da cerca, vendo o Sol se pôr, que me veio, finalmente e ao acaso, quase que numa louca epifania, a devida resposta à pergunta da moça.
Foi lá que descobri que meu coração está, na verdade, solto por aí, correndo pela campina. Que está por detrás da mangueira e por cima da jaqueira. Está subindo para pegar frutas na goiabeira. Está ipê, flamboyant e sibipiruna. Está águia, coruja e gavião. E passa o dia deitado debaixo de árvore qualquer, adivinhando o passarinho pelo canto, e ainda galopa pelo meio do capim, em cima do cavalo mangalarga. Se entoca durante a noite pra se proteger de predador e acorda cedo no dia seguinte, pronto pra subir outra montanha, ver tudo lá do alto e se sentir livre novamente.
Mal sabia a ajuda que a moça me daria naquela noite... bendita moça!
(Quem sabe um dia não nos encontremos de novo por aí)
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